As águas o perseguiam na fuga


#1766:

As águas o perseguiam na fuga,
Sem ousar olhar para trás;
Uma onda lhe sussurrou ao Ouvido:
“Vem comigo, caro amigo;
Meu salão é feito de vitrais
E há peixes na despensa
P'ra todos os gostos anuais” –
A essa revoltante aventurança
O objeto flutuante a seu lado
Não deu nenhuma resposta clara.

Incapazes são os Amados de morrer


#951

Incapazes são os Amados de morrer
Pois o Amor é Imortalidade,
Sim, é Divindade –

Incapazes os que amam – de morrer
Pois o Amor converte a Vitalidade
Em Divindade.

A Dor - expande o Tempo


#833

A Dor – expande o Tempo –
Eras se enrolam em nó
Na miúda Circunferência
De um Cérebro só –

A Dor contrai – o Tempo –
Ocupadas com o Disparo
Gamas de Eternidades
Passam sem que se repare

O Todo da coisa não veio de uma vez


#485

O Todo da coisa não veio de uma vez –
Foi Assassinato gradual –
Uma Facada – e então uma chance à Vida –
Para o Êxtase cauterizar –

O Gato adia a execução do rato
Afrouxa a presa
Só o tempo para a Esperança importunar –
Então esmaga-o até à morte –

É a recompensa da Vida – morrer –
Mais contente de uma vez só –
Do que meio morrer – então se refazendo
Para um Eclipse mais consciente –

Provo um licor nunca fermentado


#207

Provo um licor nunca fermentado –
De Canecos cavados em Marfim –
Nem todas as uvas de Frankfurt
Produzem um Álcool assim!

Embriagada de ar – vivo eu –
Uma Devassa do Orvalho –
Cambaleando – em dias de verão sem fim –
Pelas tavernas de Azul claro –

Quando o “Dono do Bar” expulsa a Abelha bêbada
Da porta da Dedaleira –
Quando as Borboletas – renunciam a seus “tragos” –
Ainda prossigo na bebedeira!

Então os Anjos erguem o alvo Chapéu –
E os Santos – às janelas do Arrebol –
Acorrem para ver a Esponjinha
Se escorando no – Sol!

Tanto assim só perdi duas vezes


#39

Tanto assim só perdi duas vezes –
E isso foi sob o chão.
Duas vezes fiquei mendigando
A Deus, em seu portão!

Anjos – duas vezes descendo
Reembolsaram meus capitais –
Ladrão! Banqueiro! – Pai!
Estou pobre uma vez mais!

As águas o perseguiam enquanto fugia


#1766

As águas o perseguiam enquanto fugia,
Sem ousar olhar para trás;
Uma onda lhe sussurrou ao Ouvido:
“Vem comigo, caro amigo;
Meu salão é de vitral,
Tenho peixes na despensa
Para todos os gostos do Ano” –
A essa revoltante aventurança
O objeto flutuante ao seu lado
Não deu qualquer resposta clara.